Desde a primeira postagem neste blog – Como um cirurgiāo plástico entrou para o mundo da nutriçāo – todos artigos apresentados seguem um padrāo, cuja premissa básica é o respeito à Medicina Baseada em Evidências.

Gostaria de explicar a importância de adotarmos esse princípio, pois muitos pacientes acreditam que a autoridade de um autor, a lógica e/ou a plausibilidade, sāo suficientes para fundamentar o entendimento e aceitaçāo de uma determinada leitura. Isto é conhecido como pensamento cartesiano de René Descartes, que organizou a lógica como pensamento dominante. Contudo, a ciência mostrou que isto serve apenas para situações simples, pois nas situações complexas (como o corpo humano) a lógica e a realidade podem ser diferentes.

Portanto existem níveis de evidência que devem ser observados.

Um dos autores mais conhecidos sobre este tema é o professor baiano Luis Claudio Correia autor do excelente blog MBE – Medicina Baseada em Evidências, onde podemos encontrar ( já em 2012 ) uma postagem denominada “Guia para Análise Crítica de Evidências sobre Terapia” que acreditamos ser uma leitura quase que obrigatória para todos que se preocupam com a qualidade das evidências publicadas nos diferentes meios de informaçāo. Diante de sua importância e relevância, reproduzo abaixo a postagem:

Guia para Análise Crítica de Evidências sobre Terapia

Por Luis Claudio Correa

O primeiro princípio da medicina baseada em evidências nos lembra que precisamos analisar o nível de evidência antes de incorporar a informação de um estudo na conduta médica. Várias foram as postagens deste Blog nas quais abordamos estudos terapêuticos, utilizando-os como gancho para discussão de análise crítica de evidências referentes a eficácia. Pretendemos agora apresentar a técnica de análise crítica de forma sistematizada, passo a passo, o que pode servir de guia para quando nos deparamos com um estudo que sugere ou nega benefício de uma conduta terapêutica.

A leitura de um artigo deve ser um processo sistematizado, devemos saber o que procurar. A atividade mental deve ser ativa, um processo investigativo. Devemos começar lendo a conclusão do artigo, e depois iniciamos a avaliação do quanto fundamentada é a conclusão. Aí cabe uma leitura dos resultados e métodos, dirigida por um check-list mental. A leitura de um artigo não deve ser como a leitura de um romance, do início ao fim, de forma relaxada. Na verdade, nem precisamos ler todas as palavras dos artigos, não recomendo isso.

Na análise de evidência sobre terapia, precisamos considerar três aspectos: (1) a veracidade, (2) a relevância e (3) a aplicabilidade da informação oferecida pelo trabalho. Devemos sempre começar a análise pela veracidade, pois quando mudamos a ordem de avaliação destes três tópicos, podemos nos confundir na conclusão final. Afinal, não haveria sentido em discutir a relevância ou aplicabilidade de uma informação falsa.

Inicialmente abordaremos veracidade. São os cinco passos para análise de veracidade:

Passo 1: Há efeito de confusão influenciando o resultado?

Passo 2: O resultado decorre do acaso (significância estatística)?

Passo 3: A conclusão foi baseada no resultado do desfecho primário ou secundário?

Passo 4: Há viés de mensuração?  (estudo aberto? desfecho subjetivo?)

Passo 5: Há viés de tratamento ? (intenção de tratar? cross-over acentuado?)

Passo 1: Há efeito de confusão influenciando o resultado? – Ensaio clínico randomizado versus estudo observacional.

A possibilidade de efeito de confusão representa o mais importante “fator de risco” para gerar resultados incorretos sobre eficácia terapêutica. Foi devido a fatores de confusão que se afirmou que vitaminas previnem câncer/doença cardiovascular e que terapia de reposição hormonal (TRH) previne infarto. Nestes casos, a afirmação se embasou em estudos observacionais, que foram contraditos por ensaios clínicos subseqüentes. No estudo observacional, o tratamento (vitamina, TRH) é determinado pelo escolha do paciente ou permissão do seu médico. Isso gera um imenso problema, pois a escolha faz com que os pacientes tratados sejam muito diferentes dos não tratados. Por exemplo, evita-se TRH em mulheres hipertensas e tabagistas, devido ao risco de associação do hormônio com estes fatores. Por isso, quem usa TRH geralmente não é hipertensa, nem tabagista, sendo de menor risco (não pela TRH). Embora sem comprovação de benefício, o ato de usar vitamina diariamente marca indivíduos com estilo de vida mais saudável do que as pessoas que não usam vitamina.

Já comentamos neste Blog sobre a associação de chocolate e de vinho com menor risco cardiovascular. Embora pareça sedutor relacionar estas coisas a saúde (muitos falam do vinho como se fosse um fato), é muito possível que estas associações tenham influência de fatores de confusão. Tudo é baseado em estudos observacionais e é fácil de entender o mecanismo dos fatores de confusão nestes casos. Por exemplo, quem come chocolate não é diabético, tornando-o de menor risco (não por causa do chocolate); quem bebe vinho com frequência geralmente não é doente, nem muito idoso. Estes fatores inibem o uso de bebida alcoólica, seja por proibição, seja por motivação do paciente.  A solução para essa confusão são os ensaios clínicos randomizados para chocolate versus controle, ou vinho versus controle.

Mas porque o ensaio clínico não é vulnerável a fatores de confusão?

O ensaio clínico determina o tratamento por sorteio, de forma aleatória, fazendo com que o grupo tratado e o grupo não tratado sejam idênticos. É só olhar as tabelas de características clínicas de grandes ensaios clínicos (> 300 pacientes, idealmente > 1000 pacientes), os dois grupos são iguais em tudo! É a magia da randomização.

Por isso que um ensaio clínico randomizado é sempre um nível de evidência muito superior a estudos observacionais, pois o principal “fator de risco” para resultados espúrios é evitado neste primeiro modelo. Já os estudos observacionais, mesmo que se faça análise estatística ajustando para fatores de confusão, não ficam isentos do problema. Todos estes estudos fizeram análise multivariada, mas isso não bastou para prevenir o erro.

Há ainda aqueles que tentam priorizar resultados de estudos observacionais por estes representarem melhor o “mundo real”. Este é um grande equívoco, pois coloca a análise de aplicabilidade antes da análise de veracidade e  sugere acreditar nos observacionais por uma vantagem (“mundo real”) muito inferior à desvantagem que se recebe em troca (o pior “fator de risco” para resultados espúrios – efeito de confusão).

Uma vez verificando que a evidência é proveniente de um ensaio clínico (bem) randomizado, ficamos mais tranqüilos. Porém devemos saber que isto é uma condição necessária para a veracidade, porém não suficiente.

A informação proveniente de um ensaio clínico pode decorrer de três fenômenos: acaso, viés ou causaCausa significa uma associação verdadeira entre o uso da terapia e a melhora do paciente, quando a terapia de fato causa um benefício. Mas antes de chegar a esta conclusão, precisamos nos preocupar com os dois tipos de erros que se observa em ciência: erro aleatório (acaso) e erro sistemático (viés). O erro aleatório decorre do acaso, não ocorre por falha do pesquisador ou porque o protocolo do estudo foi feito de maneira incorreta. É simplesmente o azar do resultado na sua amostra ter desviado do que ocorre da população. Já o erro sistemático decorre de falha no protocolo do estudo, pode ser previsível até mesmo antes do estudo ser realizado.

Vamos começar pelo erro aleatório.

Passo 2: O resultado decorre do acaso (significância estatística)?

Como já mencionado neste Blog (regressão à médiapênalti), o acaso permeia nossas vidas de forma mais prevalente do que o senso comum sugere. Um ensaio clínico randomizado é realizado em uma amostra da população-alvo do estudo. Quando avaliamos a eficácia da aspirina no infarto do miocárdio, não a testamos em todos os pacientes com infarto. Utilizamos uma amostra (uma parte pequena) de todos os pacientes infartados no mundo. Quando trabalhamos com amostra, devemos nos preocupar com o papel do acaso. Ou seja, por acaso (por azar) o observado em nossa amostra pode ser diferente do resultado se tivéssemos estudado a eficácia da droga em toda a população de infartados do mundo (o que seria impraticável).

Por este motivo, ao observamos um resultado, devemos ter a consciência de que este pode ter sido decorrente do acaso. Para resolver esta preocupação, em meados no século XX os testes estatísticos foram inventados, através dos quais estimamos a probabilidade de um resultado ser decorrente do acaso. Esta probabilidade é comumente expressa nos ensaios clínicos pelo valor de P. Como trabalhamos com amostras, nunca podemos garantir que o resultado não decorreu do acaso, no máximo o que fazemos é tolerar certa probabilidade do acaso como desprezível. E, por convenção, a probabilidade tolerável é 5%. Se em ensaio clínico hipotético, a mortalidade no grupo droga for 10%, comparada a 13% no grupo placebo, os dados sugerem que a droga reduz mortalidade. Mas isso pode ter decorrido do acaso. Então se o valor de P for menor do que 5% (digamos 3% = 0.03), consideramos esta probabilidade desprezível e diremos que a diferença não decorreu do acaso. Todo este raciocínio pode ser resumido na expressão estatisticamente significante, que nada mais é do que probabilidade desprezível do acaso. O ato de afirmar que existe uma diferença que decorreu do acaso é denominado Erro Tipo I. Evitamos o erro tipo I quando exigimos significância estatística.

Até agora está simples e fácil, pois o conceito de que precisamos de um valor de P < 0.05 está muito bem sedimentado no meio médico. Porém precisamos saber que há situações onde a probabilidade do acaso não é desprezível mesmo com um valor de P < 0.05.

Passo 3: A conclusão foi baseada no resultado do desfecho primário ou secundário ?

Como dissemos, há situações onde a probabilidade do acaso não é desprezível mesmo com um valor de P < 0.05. E a principal situação ocorre quando são analisamos desfechos secundários. Diferente do desfecho primário, são muitos os desfechos secundários analisados simultaneamente. Quando muitas comparações são feitas simultaneamente, a probabilidade do acaso é amplificada além do que o valor de P está representando. Este fenômeno é chamado de problema das múltiplas comparações.

Por exemplo, qual a probabilidade de que ao jogar uma moeda 10 vezes, o resultado seja cara todas as 10 vezes? Esta probabilidade é ínfima. Mas se fizemos esse experimento (jogar 10 vezes a moeda) 50 vezes, a probabilidade de que em algum dos 50 experimentos cara seja o resultado todas as 10 vezes é maior do que se fizermos o experimento apenas 1 vez. Claro, é só pensar um pouco. Isso faz com que quando analisamos desfechos secundários, a probabilidade do acaso fica amplificada, pois são muitos os desfechos analisados simultaneamente. Algum pode aparecer significativo por acaso. Este foi o raciocínio que fizemos em recente postagem, quando contestamos que Dabigatran causa infarto, pois infarto foi um desfecho secundário.

Desta forma, devido à maior probabilidade do Erro Tipo I, resultados de desfechos secundários podem gerar hipóteses, mas não devem ser vistos como definitivamente verdadeiros.

Outro problema dos desfechos secundários é o fato de que o estudo não foi dimensionado para tal, ou seja, muitas vezes não há poder estatístico para se testar aquele desfecho. Quando encontramos uma diferença em um estudo sem poder estatístico, esta tem maior “risco” de ser decorrente do acaso. Porque? Imaginemos um caso extremo, onde o estudo é muito pequeno e para que se consiga um P < 0.05 em um estudo tão pequeno, seria necessário uma diferença muito grande entre os grupos (tipo mortalidade 10 vs. 50%). Uma diferença tão grande que se torna implausível, sendo o acaso a única possibilidade de explicação. Lembram-se da enorme diferença de mortalidade obtida em um estudo pequeno com beta-bloqueador em pré-operatório de cirurgia não cardíaca? Lembram-se do estudo LIDO que mostrou levosimedan reduzindo mortalidade (desfecho secundário) quando comparado a dobutamina em pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada. Isto fez com que entusiastas e interessados propusessem o uso do levosimedan. No entanto, mortalidade era desfecho secundário naquele estudo de apenas 200 pacientes. Anos mais tarde, o estudo SURVIVE (1200 pacientes, morte como desfecho primário) demonstrou mortalidade idêntica nos dois grupos.

Pior quando o desfecho nem é definido a priori, ou seja, os autores nem dizem antes do estudo o que vão testar, testam uns 300 desfechos e apresentam os de resultados positivos (embora positivos por acaso).

Desta forma, uma evidência ideal sobre eficácia deve ser proveniente da análise de um desfecho primário e deve ter um valor de P < 0.05. Se for proveniente de desfecho secundário, é apenas um resultado parcial, que precisa ser testado em estudos desenhados para ter aquele desfecho como primário.

Passo 4: Há viés de mensuração?  (estudo aberto? desfecho subjetivo?)

Afastada a probabilidade do acaso, devemos nos preocupar com potenciais vieses como mediadores de um falso resultado.  O viés é um erro sistemático, ou seja, decorre de falha na metodologia do estudo. Se é um estudo de uma droga anti-hipertensiva e o medidor de pressão está descalibrado, podemos incorrer em um erro sistemático, um erro que se repete em diferentes pacientes, por falha da ferramenta de medida. Este é um exemplo básico de um viés de mensuração. Tão básico que não vai ocorrer em estudos minimamente organizados.

Na realidade, o principal “risco” de viés de mensuração ocorre quando temos um estudo aberto (ao invés de cego), onde o pesquisador sabe quem está usando a terapia. Este viés fica acentuado quando o pesquisador está avaliando um desfecho subjetivo, denominado de soft. Ao sabermos o que o paciente está usando e este se queixa de um sintoma subjetivo de dispnéia, temos mais tendência a interpretar a dispnéia como verdadeira se o paciente está usando placebo, e mais tendência a não valorizar a dispnéia se a droga ativa estiver sendo usada. Lembram-se da análise do estudo do BNP em insuficiência cardíaca?

O valor do placebo (vide postagem) não se limita a simular o efeito psicológico do tratamento. É muito útil também para cegar o médico na interpretação dos desfechos.

Há outros tipo de vieses. Viés de seleção, quando os critérios de inclusão não foram suficientes para selecionar a amostra de interesse. Por exemplo, queremos avaliar pacientes com síndromes coronarianas agudas, mas incluímos qualquer dor torácica, muitas delas que podem ser decorrentes de outras causas. Viés de seguimento, quando há muitas perdas de pacientes durante o seguimento (será que os pacientes que sumiram do mapa foram os que morreram?). Viés de análise de dados, desde erros estatísticos até tendência na escolha da forma de análise.

Passo 5: Há viés de tratamento ? (intenção de tratar? cross-over acentuado?)

O viés do tratamento é algo que precisamos nos preocupar também. Este é muito presente em estudos observacionais, pois a forma de tratamento não é padronizada (dose, tipo de droga, duração), nem monitorada. Porém mesmo em ensaios clínicos, pode ocorrer o viés de tratamento. Sempre que randomizamos um grupo para tratamento, nem todos deste grupo de fato completam o tratamento, assim como alguns do grupo controle acabam usando o tratamento. Isso se denomina de cross-over, que é inerente de qualquer tipo de tratamento e idealmente não deve ultrapassar 30%. Mas porque toleramos um certo nível de cross-over ? Toleramos porque no mundo real, de fato, nem todos os pacientes que prescrevemos um tratamento são submetidos ao tratamento. Precisamos entender que o ensaio clínico está na verdade testando a intenção de tratar, ou seja, a eficácia do ato médico de prescrever o tratamento. Esta eficácia é também determinada pela aceitação do paciente ao tratamento, que deve ser computada no estudo. Se excluirmos estes pacientes, estaríamos tornando mais artificiais nosso resultado, seria um viés de tratamento. Portanto, a análise primária dos estudos deve ser baseada na intenção de tratar, onde alguém alocado para o grupo droga será sempre droga, mesmo que não tenha recebido a droga. O mesmo com o grupo placebo ou controle. Trocar os pacientes de grupo de acordo com o verdadeiro uso do tratamento (análise per protocol) deve ser visto como uma análise secundária. Além do problema mencionado, esta conduta viola o processo de randomização e faz voltar o risco de efeito de confusão. A exceção onde a análise per protocol deve ser valorizada são estudos de não-inferioridade (vide postagem de Adriana Latado).

Outro aspecto importante: quando estamos avaliando um tratamento conservador versus tratamento agressivo, é natural e desejado que parte dos pacientes do grupo conservador ao longo do segmento migrem para o grupo agressivo, a depender do julgamento médico. Isso faz parte da estratégia conservadora, e estes pacientes devem continuar rotulados como tendo sido submetidos ao grupo conservador. Por exemplo, no estudo COURAGE, ao longo do seguimento partedos pacientes do tratamento clínico realizaram angioplastia. Isso não é um problema, pois tratamento clínico significa a primeira estratégia e não implica em proibir o médico de optar pelo tratamento intervencionista se o conservador não funcionar plenamente.

Em conclusão, na primeira etapa de avaliação (veracidade), devemos nos preocupar com as seguintes questões:

Passo 1: Há efeito de confusão influenciando o resultado?

Passo 2: O resultado decorre do acaso (significância estatística)?

Passo 3: A conclusão foi baseada no resultado do desfecho primário ou secundário?

Passo 4: Há viés de mensuração?  (estudo aberto? desfecho subjetivo?)

Passo 5: Há viés de tratamento ? (intenção de tratar? cross-over acentuado?)

Caso a conclusão passe pelo crivo de todas estas análises, a consideramos verdadeira e partimos sem medo para a análise de relevância. Caso haja dúvida em relação à veracidade, devemos considerar o estudo apenas como gerador de hipótese, insuficiente para modificar nossa conduta. Em alguns casos, nem gerador de hipótese podemos considerar o estudo.

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O link da postagem original do artigo está aqui!

Tags : evidenciamedicinamedicina baseada em evidencias
Dr. João Eschiletti

The author Dr. João Eschiletti

Dr. João Carlos Correa Eschiletti (CREMERS 11095 – RQE 11861) é formado pela UFRGS em 1980. É médico nutrólogo pela Associação Brasileira de Nutrologia ABRAN, CFN, MEC. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é mestre em Medicina pela Universidade de Porto – Portugal.

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