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Colesterol: o que você precisa saber

Uma pergunta frequente em consultas para controlar o peso, diz respeito ao aumento do colesterol devido a um tipo de dieta que recomenda o consumo de gorduras em proporções superiores às existentes na tradicional tabela da pirâmide alimentar.

Na atualidade, esta dúvida está bem esclarecida pelas pesquisas científicas que demonstraram não haver relação direta entre consumir gorduras e aumento do colesterol.

Por isso vamos reproduzir uma série que evidencia de forma brilhante estas afirmações. O trabalho encontra-se no site de um dos mais conhecidos defensores das dietas low carb, Dr. José Neto, nefrologista de Minas Gerais. A primeira postagem, denominada “Colesterol: Herói ou Vilão” trata dos aspectos gerais do colesterol e segue abaixo na integra:

Colesterol 1: Herói ou Vilão ?
Dr. José Neto

Quando eu era criança acreditava que havia um fantasma embaixo da minha cama e por mais que meus pais me falassem que ele não existia, eu não conseguia acreditar. Meu pai sugeria olhar diretamente para constatar que ele não estava ali, mas o medo paralisante me deixava inerte. Só depois de algum tempo consegui verificar com meus próprios olhos a inexistência da assombração, mas a certeza era tão grande que comecei a crer que a ela poderia ter dado uma saída naquele momento.

Quando o assunto é colesterol não é diferente. Vejo esse mesmo medo estampado na face das pessoas e o discurso doutrinário só troca de endereço.

Troquei os ovos pelo cereal matinal no café da manhã. Torresmo, bacon e banha de porco? Socorro!!! Isso é suicídio! Estou ótimo(a)! Dosei meu colesterol e ele está excelente! Muitas vezes essas frases saem das bocas de obesos, diabéticos, hipertensos e a categoria que mais me apavora: profissionais da saúde.

Não adianta o argumento, a crença no senso comum é muito mais forte!

Aproveitando o clima de eleições nacionais, no dia 07/10/18, fiz uma enquete no Instagram perguntando a meus seguidores se a palavra COLESTEROL remetia mais a vida ou morte. Em outro cenário creio que o resultado seria o oposto, mas em função da amostra viciada do inquérito tive uma agradável surpresa. Muitas dessas pessoas que me acompanham pelas redes sociais, em algum momento, já me viram falar algo sobre essa substância VITAL para nosso organismo. Sim! Eu disse VITAL! Sem colesterol não há possibilidade de vida.

Ele é um constituinte essencial das membranas celulares do nosso corpo, faz parte da composição de inúmeros hormônios (sexuais, cortisol, aldosterona), é um grande protagonista no cérebro e está presente em inúmeros processos bioquímicos (produção de bile, digestão de algumas vitaminas).

E assim… você já viu alguém morrer de colesterol? Se sim, talvez seja porque um porco caiu sobre essa pessoa ou foi atropelada por uma vaca.

Ninguém morre de colesterol! Seria o mesmo que dizer que alguém morreu de alguma alteração laboratorial ou mesmo de falta de atividade física. Independente do questionável papel dessa substância na origem das doenças cardiovasculares, percebam que os desfechos efetivamente importantes são infartos, derrames, mortes; e não alguns números em um papel com valores de referência!

A lavagem cerebral foi tamanha nos últimos anos que tenho receio de encontrar pessoas com mais medo de terem o “colesterol alterado” do que de infartarem.

E de onde vem esse pavor do colesterol???

Experimentos russos, com coelhos, no fim do século XIX, mostraram que após alimentar essas cobaias com colesterol puro, estudos de necrópsia demonstraram depósitos dessa substância nas artérias (aterosclerose), tendões e outros tecidos desses animais.

Elementar, meu caro Watson! Coelhos são herbívoros e não evoluíram para comerem picanha e contra-filé; ou seja, acabam depositando o colesterol em sítios inapropriados.

A conclusão correta do estudo russo seria que coelhos deveriam ser alimentados com gramíneas e cenouras e não com colesterol puro.

Acontece que a primeira metade do século XX foi marcada por uma explosão de doenças cardíacas nos EUA. Esse crescimento vertiginoso atingia principalmente homens de meia idade e vinha ceifando a vida de muitos pais de família. Aquilo vinha gerando bastante inquietude nos meios civis e acadêmicos. Até que em 23 de setembro de 1955 o presidente americano em exercício, Dwight Eisenhower, sofre seu primeiro infarto. Isso foi a gota d’água e causou uma comoção nacional! Nem as celebridades estavam imunes!

Inúmeras hipóteses estavam sendo discutidas nessa época. Estreitamento inexorável das artérias com o envelhecimento? Dieta ocidental? Falta de atividade física? Colesterol? Até aí tudo bem. Especulam-se hipóteses e após experimentos podemos nos aproximar ou nos afastar da verdade (que em ciência SEMPRE é dinâmica).

Infelizmente, com o passar dos anos, uma hipótese acabou prevalecendo e virando senso comum, com base em achismos e extrapolações de achados em condições genéticas raras como a hipercolesterolemia familiar, onde há realmente um risco aumentado de eventos cardiovasculares (infartos, derrames). Só que mais do que qualquer estudo ou condição, destaca-se o papel de um cientista da época. Seu nome? Ancel Keys.

Prepotente, arrogante, persuasivo, carismático, brilhante! Adjetivos que remetem a essa figura descrita por muitos como uma espécie de gênio do mal.

Fisiologista de Minnesota, ele teve como grande foco de estudo a relação entre nutrição e a doença cardíaca. Seu grande porém? Acreditar que suas hipóteses eram verdades inexoráveis e não medir esforços para provar isso.

Keys cunhou a famosa hipótese dieta coração. De modo simplista é uma idéia que muitos conhecem desde o berço. A gordura dos alimentos levaria colesterol aos vasos sanguíneos e haveria em consequência uma obstrução de nossas artérias com consequentes infartos e acidentes vasculares cerebrais. Plausível? Sim! Verdade? Só experimentos poderiam concluir sobre isso.

Infelizmente o furor de Keys era tamanho que ele não poupou esforços para gerar dados que confirmassem sua teoria, sendo o Estudo dos 7 Países seu principal representante (veja aqui). Publicado em 1970, trata-se de uma coorte prospectiva (incapaz de inferir causa), repleta de problemas metodológicos (maior deles: coleta de dados) e assustadoramente tendenciosa na escolha dos países (maior probabilidade de casar com a hipótese dieta coração – foram descartados “paradoxos” como França e Alemanha onde mesmo com maior consumo de gorduras, a taxa de mortalidade cardiovascular é baixa)

O problema está no objetivo primário. Se for provar sua teoria, cientificamente o caminho está errado. A meta deve ser buscar a verdade e não a sua verdade.

Através de muita política e apoiado em ombros largos (AHA, imprensa e NIH), Keys é o grande progenitor desse temor da gordura e do colesterol que foi oficialmente traduzido em recomendações oficiais pela primeira vez em 1977 pela Comissão McGovern, composta basicamente por leigos no assunto. Historicamente foi a primeira vez que políticos resolveram decidir o que o povo deveria comer. Alta probabilidade de dar errado, né? E deu!

Ela acabou gerando, em 1980, as Diretrizes Nutricionais para os Americanos que foi base para a famigerada pirâmide alimentar de 1992 e que ainda pulpita em pleno 2018 como verdadeiro morto vivo a despeito do tsunami de evidências contrárias.

Irônico ver que o próprio pai da criatura refutou, ainda na década de 60, a idéia da comida influir significativamente no colesterol do sangue em um experimento com voluntários. Ele deu 3000mg de colesterol para cada um dos participantes e não viu nenhuma diferença nos valores de colesterol (veja aqui). Só para se ter uma idéia, um ovo grande tem cerca de 200mg da substância.

Esse não é o único estudo a mostrar esse padrão de resultado. O melhor deles, entre os que conheço, data de 1992 (veja aqui). É uma revisão com metanálise de 27 estudos com dieta controlada. O efeito da dieta sobre o colesterol sérico é pífio! A explicação? Cerca de 75% do colesterol do nosso corpo é produzido internamente, sendo o fígado o principal ator nesse processo. Na prática, se comemos mais colesterol há redução na sua produção e se comemos menos há um aumento.

Triste que em 2018 ainda vejamos médicos, nutricionistas e até instituições (veja um exemplo aqui) despenderem muita energia e dinheiro defendendo a redução do consumo de alimentos em função do seu teor de colesterol baseado em uma crença xiita.

Assim como o fantasma era minha assombração infantil, o colesterol segue sendo o da vida de muitos pacientes e profissionais. Em ciência precisamos vencer nossos medos transvestidos de senso comum. Como? Olhando embaixo da cama e cogitando a possibilidade do fantasma não existir ou ser uma espécie de Gasparzinho, um bem camarada.

Apenas como curiosidade histórica, o excelentíssimo Eisenhower tinha um colesterol total de 165 mg/dl no evento de 1955, era um tabagista inveterado e sua mudança para a chamada dieta prudente (baixa em gorduras) não foi capaz de impedir mais 5 infartos até sua morte em 1969.

Só que as estatinas reduzem o colesterol e diminuem o risco de infarto, certo? Quer saber a resposta? Siga acompanhando a série sobre o colesterol. Basta se cadastrar para receber os novos posts em primeira mão.

Artigo disponível em: https://www.drjoseneto.com.br/blog/colesterol-1-heroi-ou-vilao/

Tags : baconbanha de porcocolesteroltorresmo
Dr. João Eschiletti

The author Dr. João Eschiletti

Dr. João Carlos Correa Eschiletti (CREMERS 11095 – RQE 11861) é formado pela UFRGS em 1980. É médico nutrólogo pela Associação Brasileira de Nutrologia ABRAN, CFN, MEC. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é mestre em Medicina pela Universidade de Porto – Portugal.

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