Saúde

Estudo afirma que Gordura Saturada Não Entope as Artérias

A falácia da autoridade é uma situação onde determinada pessoa, usando suas credenciais profissionais, impõe uma ideia ou conduta sem admitir sua contestação.

Um cargo oriundo de estudo e trabalho deve, com certeza ser respeitado, contudo, isso, por si só, não é o suficiente para  determinar a verdade.

A questāo central é sabermos se uma afirmação pode satisfazer os critérios de uma hipótese nula (ceticismo, testar para crer) bem como da prova de conceito (onde um julgamento clínico deve ser norteado por dados científicos, o que é diferente de determinado, obrigado).

No trabalho a seguir, é importante esclarecer as credenciais dos autores, pois são figuras de destaque no meio científico: O cardiologista Assem Malhorta, chefe do Serviço de Saúde National da Inglaterra, a doutora Rita Redbergé, editora chefe  do JAMA e o doutor Pascoal Meyer, editor do BMJ, duas das revistas científicas mais respeitadas no mundo.

Como já destacado, isso, por si só,  não serve como verdade científica, mas serve para demonstrar como os conceitos de alimentação natural com baixo carboidrato sāo cada vez mais aceitos pela medicina convencional.

Junto ao artigo, os autores disponibilizam um grande número de artigos científicos que fundamentam sua análise.

A recomendação principal mira a comida real, não industrializada, e exercícios regulares, tão simples como caminhadas durante 20 minutos por dia.

Na verdade os estudos não são novidade, sendo bem conhecidos, mas seu conjunto forma um corpo sólido de evidências sobre o fato de que as gorduras saturadas na verdade não entopem nossas artérias ao adotarmos intervenções simples no estilo de vida.

Segue o editorial:

Gordura saturada não entope as artérias – doença arterial coronariana é uma condição inflamatória, risco que pode ser efetivamente reduzido a partir de intervenções de estilo de vida saudável

A patogênese e o tratamento da doença arterial coronariana requerem urgentemente uma mudança de paradigma. Apesar da crença popular entre os médicos e o público, o modelo conceitual de gordura saturada dietética entupindo um tubo é simplesmente errada. Uma revisão sistemática das descobertas e uma meta-análise de estudos observacionais não mostraram associação entre o consumo de gordura saturada e (1) mortalidade por todas as causas, (2) doença arterial coronariana (DAC), (3) mortalidade por DAC, (4) acidente vascular cerebral isquêmico ou (5) diabetes tipo 2 em adultos saudáveis.1 Da mesma forma, na prevenção secundária de DAC, não há benefício em reduzir a gordura, incluindo gordura saturada, sobre infartos do miocárdio, mortalidade cardiovascular ou mortalidade por todas as causas.2 É instrutivo observar que em um estudo angiográfico de mulheres pós-menopáusicas com DAC, maior ingestão de gordura saturada foi associada com menor progressão da aterosclerose enquanto que a ingestão de carboidratos e de gorduras poli-insaturadas foram associados com maior progressão.3

Prevenir o desenvolvimento da aterosclerose é importante, mas é a aterotrombose que é o verdadeiro assassino

Os processos inflamatórios que contribuem para a deposição de colesterol dentro da parede da artéria e posterior formação de placa (aterosclerose), se assemelham mais a uma “espinha” (figura 1). A maioria dos eventos cardíacos ocorre em locais com <70% de obstrução da artéria coronária e estes não geram isquemia no teste de estresse.4 Quando a ruptura das placas (análoga à ruptura de uma espinha), a trombose coronariana e o infarto do miocárdio podem ocorrer em poucos minutos. A limitação da abordagem atual do encanamento (“desobstrução de um tubo”) para o manejo da doença coronariana é revelada por uma série de ensaios controlados randomizados (ECRs) que provam que usar stents em lesões estáveis significativamente obstrutivas não consegue prevenir o infarto do miocárdio ou reduzir a mortalidade.5

Fonte Figura 1 (adaptado a partir da figura original)
Intervenções no estilo de vida para a prevenção e tratamento da doença coronariana.

ECRs dietéticos com benefício de desfecho na prevenção primária e secundária

Em comparação com o conselho de seguir uma dieta de ‘baixo teor de gordura’ (37% de gordura), uma dieta mediterrânea sem restrição energética (41% de gordura) suplementada com pelo menos quatro colheres de azeite de oliva extra virgem ou um punhado de nozes (PREDIMED) atingiu significantes 30% (Número Necessário para Tratar – NNT = 61) de redução em eventos cardiovasculares em mais de 7500 pacientes de alto risco. Além disso, o estudo do Coração de Lyon mostrou que a adoção de uma dieta mediterrânea na prevenção secundária melhorou os desfechos duros para infarto do miocárdio recorrente (NNT = 18) e mortalidade por todas as causas (NNT = 30), apesar de não haver diferença significativa no colesterol LDL no plasma entre os dois grupos. São o ácido alfa-linoleico, polifenóis e ácidos graxos ômega-3 presentes nas nozes, azeite de oliva extra virgem, legumes e peixes gordurosos que rapidamente atenuam a inflamação e a trombose coronariana.6 Ambas as dietas de controle nesses estudos eram relativamente saudáveis, o que torna altamente provável que benefícios ainda maiores fossem observados se as dietas Mediterrâneas discutidas fossem comparadas com uma dieta ocidental típica.

O risco do colesterol LDL tem sido exagerado

Décadas de ênfase na primazia da redução do colesterol plasmático, como se este fosse um fim em si e conduzindo um mercado de alimentos e medicamentos ‘para baixar o colesterol’ e ‘baixo teor de gordura’, tem sido um equívoco. Relatórios seletivos podem explicar em parte esse equívoco. A reanálise de dados não publicados do Sydney Diet Heart Study e da experiência coronariana de Minnesota revela que a substituição de gorduras saturadas por óleos vegetais contendo ácido linoléico aumentou o risco de mortalidade apesar das reduções significativas de LDL e colesterol total.7

Um alto coeficiente de CT/HDL (Colesterol Total dividido por HDL) é o melhor preditor de risco cardiovascular (por isso que este cálculo, e não o LDL, é utilizado em calculadoras de risco cardiovascular reconhecidas como a de Framingham). Uma elevada razão CT/HDL é também um marcador substituto para a resistência à insulina (isto é, insulina sérica cronicamente elevada na raiz da doença cardíaca, diabetes tipo 2 e obesidade). E naqueles com mais de 60 anos, uma revisão sistemática recente concluiu que o colesterol LDL não está associado com doença cardiovascular e está inversamente associado com a mortalidade por todas as causas.8 Uma alta relação CT/HDL cai rapidamente com mudanças na dieta, como substituir carboidratos refinados por alimentos ricos em gordura.

Uma forma simples de combater a resistência à insulina (níveis séricos cronicamente elevados de insulina) e inflamação

Em comparação com os indivíduos fisicamente inativos, aqueles que caminham em marcha acelerada por pelo menos 150 min/semana podem aumentar a expectativa de vida em 3,4 a 4,5 anos, independentemente do peso corporal.9 O caminhar rápido também pode ser mais eficaz do que correr na prevenção de doença coronariana. E apenas 30 minutos de atividade moderada por dia mais de três vezes por semana melhora significativamente a sensibilidade à insulina e ajuda a reverter a resistência à insulina (isto é, reduz os níveis cronicamente elevados de insulina que estão associados à obesidade) dentro de meses em adultos sedentários de meia-idade. Isso ocorre independentemente da perda de peso e sugere que mesmo uma pequena atividade contribui fortemente.

Outro fator de risco para DAC é o estresse ambiental. Trauma infantil pode levar a uma diminuição média na expectativa de vida de 20 anos. O estresse crônico aumenta a resistência do receptor de glicocorticóides, o que resulta na incapacidade de regular a resposta inflamatória. Combinando uma abordagem completa de estilo de vida de uma dieta saudável, atividade física regular e redução do estresse melhora a qualidade de vida, reduz a mortalidade cardiovascular e por todas as causas.10 É hora de mudar a mensagem de saúde pública na prevenção e tratamento da doença arterial coronariana para outra direção, para longe da medição de lipídios séricos e redução da gordura saturada na dieta. A doença arterial coronariana é uma doença inflamatória crônica e pode ser reduzida efetivamente caminhando 22 minutos por dia e comendo comida de verdade. Não há nenhum modelo de negócio ou mercado para ajudar a espalhar essa intervenção simples, mas poderosa.

Referências

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(Traduzido de  http://bjsm.bmj.com/content/early/2017/03/31/bjsports-2016-097285)

Tags : arteriadoencas cardiacasdoencas coronariasestilo de vidagordura saturadavida saudavel
Dr. João Eschiletti

The author Dr. João Eschiletti

Dr. João Carlos Correa Eschiletti (CREMERS 11095 – RQE 11861) é formado pela UFRGS em 1980. É médico nutrólogo pela Associação Brasileira de Nutrologia ABRAN, CFN, MEC. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é mestre em Medicina pela Universidade de Porto – Portugal.

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